Aqui é o meu lugar

Aqui é o meu lugar – (This must be the place – Paolo Sorrentino- França/Itália/Irlanda -2012)

À primeira vista, o que chama a atenção em “Aqui é o meu lugar”, estrelado por Sean Penn e dirigido pelo diretor italiano Paolo Sorrentino, é o visual do personagem Cheyenne, protagonista do filme.

Não há menção alguma no filme ou em qualquer  outro lugar na imprensa de que a imagem do personagem tenha sido baseada em algum artista real, mas é impossível não se lembrar de Robert Smith, vocalista da banda The Cure, famosa nos anos 1980, ao se deparar com a cabeleira despenteada, as roupas pretas, a fala mansa e o batom vermelho, cuidadosamente borrado, na boca.

Ainda falando sobre astros da música, o título original do filme é baseado na canção homônima de David Byrne (This must be the place) e o próprio cantor faz uma ponta, como colega de Cheyenne, cuja trajetória no longa tem muito a ver com a canção-título.

Cheyenne é um astro da música de aproximadamente 50 anos de idade, afastado dos palcos há 20. Mora em um castelo na Irlanda é anti-social e recluso. Vive com a renda de royalties de seus grandes sucessos e parece querer fugir de seu passado e do agito do mundo do entretenimento.

Deprimido e refém de sua própria fama, parece viver angustiado e sem expectativas. Quando recebe a notícia que seu pai, que não vê há 30 anos, está à beira da morte, resolve visitá-lo, mas acaba chegando tarde demais.

Com a idéia fixa de que seu pai, judeu e sobrevivente do Holocausto, não o amava, o cantor decide completar a missão do pai em vida: Encontrar o guarda que o humilhou em Auschwitz, hoje um senhor, escondido em algum lugar nos rincões dos EUA.  Assim, ao perpetuar a obsessão de seu pai em achar e punir seu algoz, Cheyenne pretende criar um vínculo que nunca teve com o falecido, e ao mesmo tempo, dar um objetivo à sua vida.

Em busca desse criminoso de guerra, ele segue de uma cidade a outra dos Estados Unidos o que acaba transformando filme em um road movie interessantíssimo.

A cada estado que percorre, Cheyenne vai descobrindo mais sobre o pai, sobre a natureza humana,e sobre si mesmo. O cantor nunca pertence ao local em que está, permanece sempre em trânsito – sua morada se torna os quartos de hotéis, nas estradas que cruzam os EUA.

Na verdade, a viagem acaba sendo um rito tardio para uma vida adulta , de um astro do rock que acabou prolongando a adolescência por tempo demais e que se via perdido, sem achar “o seu lugar”.

Cheio de personagens interessantes, descobertas profundas e uma ótima trilha sonora, Aqui é o meu lugar é uma ótima pedida para conferir o talento e sensibilidade de Sean Penn, ao interpretar um “adultescente” inseguro e perdido.

A fotografia é linda e mostra um lado dos EUA não muito explorado pelo grande público. Interessante notar também as cores: Nova York aparece brilhante, sugerindo algo “novo” enquanto a Irlanda é cinzenta e verde, Já o deserto do Novo México é amarelo, alaranjado, quente e o Alasca frio e cruel, pontuando grandes momentos da trama.

O ritmo é de filme europeu (o diretor é italiano), mas nem um pouco cansativo, tem diálogos rápidos e frases espirituosas, com lugares para pequenas críticas ao modo de vida norte-americano e conflitos familiares que são comuns a todos.

No final, Aqui é o meu lugar é uma ótima história de um homem a procura de si mesmo em um mundo que se nos força ao máximo a continuar assumindo múltiplas e falsas identidades.

Lindo filme. Fica a dica para esse final de semana : )

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