A importância da Experiência do Usuário (UX), do branding à conversão

Semana passada fui a um restaurante novo em São Paulo. A fachada era linda, o Instagram impecável, o cardápio com fotografia de dar água na boca. O tipo de lugar que você olha e pensa: “esse sabe o que tá fazendo”. Sentei, e aí começou o problema. O garçom demorou quinze minutos pra chegar. O cardápio, bonito que era, não deixava claro o que vinha em cada prato. Pedi uma sugestão e o atendente não soube responder. Na hora de pagar, o sistema estava fora do ar. Saí de lá com a sensação de que a comida até era boa, mas que dificilmente voltaria. E, pior, não recomendaria.

Esse tipo de experiência é mais comum do que parece, e não acontece apenas em restaurantes. Na verdade, a maioria das empresas que investem em branding comete exatamente o mesmo erro no digital. Criam uma marca bonita, investem em identidade visual, produzem conteúdo de qualidade, mas negligenciam o caminho que o usuário percorre entre conhecer a marca e virar cliente. Esse caminho tem nome: User Experience, ou simplesmente UX.

UX é uma ciência, não uma opinião

Quando se fala em UX, é comum que as pessoas pensem em telas bonitas, ícones bem desenhados e paleta de cores harmônica. Mas UX não é isso. Ou melhor, não é só isso. User Experience é uma disciplina com base em ciência cognitiva, psicologia comportamental e pesquisa empírica. Tem método, tem processo e tem fundamento.

O termo “User Experience” foi criado por Don Norman, cientista cognitivo que trabalhou como vice-presidente de tecnologia avançada na Apple nos anos 90. Em seu livro The Design of Everyday Things, Norman defende que o bom design não começa pela estética, mas pela compreensão de como as pessoas pensam, agem e processam informação. Ele introduziu conceitos que se tornaram pilares da área, como affordances (as ações que um objeto sugere ao usuário), signifiers (os sinais que indicam o que pode ser feito) e o que ele chamou de “o abismo entre execução e avaliação”, que é a distância entre o que a pessoa quer fazer e o que o produto permite que ela faça.

Com isso, UX se estabeleceu como uma disciplina centrada no ser humano, não na tecnologia. O papel do UX designer não é decorar uma interface, mas projetar o caminho entre a intenção do usuário e a ação que ele precisa realizar. Quando esse caminho é claro, a pessoa nem percebe que está sendo guiada. Quando é confuso, ela simplesmente vai embora.

A pesquisa antes da solução

Uma das coisas que diferencia UX de achismo é o papel central da pesquisa. Antes de desenhar qualquer tela, o processo de UX exige entender quem é o usuário, o que ele espera, onde ele trava e por quê. Isso é feito com testes de usabilidade, entrevistas, mapeamento de jornada e análise de comportamento.

Jakob Nielsen, cofundador do Nielsen Norman Group (uma das referências mais importantes em UX no mundo), publicou uma pesquisa baseada em um modelo matemático desenvolvido com Thomas Landauer. Essa pesquisa concluiu que um teste de usabilidade com apenas cinco usuários é capaz de identificar cerca de 85% dos problemas de uma interface. Cinco pessoas. Não mil, não cem. Cinco. O Nielsen Norman Group defende, inclusive, que três rodadas de testes com cinco usuários cada é mais eficiente do que uma única rodada com quinze, porque a cada ciclo os problemas são corrigidos e novos padrões aparecem.

Isso mostra que UX não exige investimentos estratosféricos. Exige método. E é justamente o método que transforma percepção em dado, intuição em evidência e design em resultado.

O botão que valeu 300 milhões de dólares

Para quem ainda duvida do impacto prático do UX, vale resgatar um dos casos mais emblemáticos da história do design digital. Em 2009, Jared Spool, especialista em usabilidade, foi contratado por um grande varejista online para entender por que tantos clientes abandonavam o site na hora da compra. Os produtos estavam no carrinho, o pagamento estava pronto, mas as pessoas simplesmente iam embora.

O problema era um botão. Antes de finalizar a compra, o site exigia que o usuário criasse uma conta. O botão dizia “Registrar”. Para muita gente, aquilo representava um compromisso que não queria assumir naquele momento. A equipe de Spool conduziu testes de usabilidade e ouviu de um dos participantes algo revelador: “Eu só quero comprar algo, não vim aqui pra entrar num relacionamento.”

A solução foi trocar o botão “Registrar” por “Continuar”. Só isso. O resultado foi expressivo e rendeu 45% mais compras no primeiro mês e 300 milhões de dólares a mais no primeiro ano. Uma única palavra, embasada em pesquisa com usuários reais, gerou esse impacto.

Esse caso tem quase vinte anos, mas o padrão que ele revela continua se repetindo.

Os números de hoje contam a mesma história

A meta-análise mais recente do Baymard Institute, atualizada em setembro de 2025, compilou 50 estudos sobre abandono de carrinho e chegou a uma taxa média global de 70,22%. Ou seja, de cada dez pessoas que colocam algo no carrinho de um e-commerce, sete vão embora sem comprar. O Baymard estima que sites de grande porte podem ganhar 35,26% de aumento na conversão apenas com melhorias no design do checkout, o que representa cerca de 260 bilhões de dólares em pedidos recuperáveis nos EUA e na Europa.

E quando olhamos pra performance, os resultados são igualmente expressivos. Em janeiro de 2025, a Ray-Ban publicou um case no Google web.dev mostrando que, ao implementar uma estratégia de pré-carregamento de páginas, obteve aumento de 101% nas conversões mobile e 156% no desktop. A única variável alterada foi a velocidade de carregamento. Nenhum redesign, nenhuma campanha nova. 

O branding promete, UX entrega

Essa é a relação que poucas empresas enxergam com clareza: branding e UX não são disciplinas separadas. São partes do mesmo sistema. O branding constrói a promessa, a expectativa e o desejo, enquanto UX é responsável por entregar essa promessa na prática. Quando os dois funcionam juntos, o resultado é conversão e fidelidade. Quando há um descompasso entre a promessa e a experiência, o resultado é frustração.

Voltando ao restaurante: a fachada e o Instagram me convenceram a entrar. Isso é branding. Mas o garçom perdido, o cardápio confuso e o sistema de pagamento fora do ar destruíram a promessa. Isso é UX falho. E o pior é que a comida era boa. Assim como o produto de muitas empresas que perdem clientes todos os dias.

UX se faz com quem sabe

Um dos erros mais comuns que vejo em empresas, de todos os tamanhos, é tratar UX como uma tarefa que qualquer um resolve. “Coloca um botão aqui”, “muda a cor ali”, “deixa mais bonito”. Isso é apenas decoração e, na maioria dos casos, não resolve nada.

UX envolve pesquisa com usuários, arquitetura de informação, design de interação, testes de usabilidade, análise de métricas e interação constante. Cada uma dessas etapas tem técnicas específicas e exige repertório. Don Norman, ao definir o conceito de design centrado no ser humano, deixou claro que o processo começa por entender a causa raiz dos problemas, não por aplicar soluções cosméticas. É preciso pensar em sistemas, testar continuamente e refinar com base em evidências.

Quando a equipe de Jared Spool, por exemplo, encontrou o botão que valia 300 milhões, o achado veio de um teste de usabilidade com método.

A diferença entre uma empresa que converte e uma que perde clientes no caminho é a disciplina sendo aplicada no lugar certo.

A pergunta que vale a pena fazer

Um dado do Future of User Research Report, publicado pela Maze em 2026, me chamou a atenção. Em 2025, apenas 8% das empresas consideravam a pesquisa de experiência do usuário essencial para a estratégia do negócio. Em 2026, esse número saltou para 22%. Quase três vezes mais em um único ano.

Algo está mudando. As empresas estão começando a perceber que a experiência do usuário não é um detalhe de acabamento, mas uma engrenagem central do resultado. Que o caminho entre o primeiro contato com a marca e a conversão precisa ser projetado com o mesmo cuidado que se dedica ao produto, à identidade visual e à comunicação.

Eu acredito que, cada vez mais, as empresas que vão se destacar são aquelas que entendem que UX não é um departamento, não é uma etapa final e não é cosmético. É o que conecta a promessa ao resultado. E quanto mais cedo isso for incorporado ao processo, melhor.

Afinal, não falta gente querendo comprar. O que falta, muitas vezes, é alguém que projete o caminho até a compra com a mesma inteligência com que se constrói a marca.

Não é só desenhar um site bonito: uma breve introdução a UX Design

Não é só desenhar um site bonito: uma breve introdução a UX Design

O comportamento do consumidor muda constantemente. Não é de hoje, inclusive, que as empresas e agências precisam se adaptar a essas mudanças. Mas, o que mais mudou, na era dos produtos digitais, é o consumo atrelado ao valor e experiência. Ou seja, cada vez mais as pessoas buscam produtos e serviços que sejam simples de usar e que gerem valor ao serem utilizados.

O centro de tudo, por isso, é o que chamamos de experiência do usuário, frase que virou uma buzzword. Dentro das empresas, é moda dizer que pensa em seu usuário e que se criam produtos, sites e aplicativos com foco em UX. Mas poucas pessoas entendem, de fato, o que isso significa. Afinal, o que é UX Design além de tela bonitas?

Antes de tudo, para melhor compreensão, vamos começar pelo termo UX Design, que foi cunhado por Don Norman, considerado o grande nome da área, na década de 90. O significado, em tradução livre, é Design de Experiência do Usuário. E, saindo um pouco do senso comum, design é muito mais que layout, é concepção de serviços e produto, sejam eles físicos ou digitais, pensando, especialmente, em sua forma física, funcionalidade e percepção. Com isso, recorro novamente a Don Norman para nos explicar o restante do termo: “Tudo é experiência do usuário.”.

Bom, partindo para uma abordagem mais prática, UX Design é aquilo que foi criado, por meio de estratégias, metodologias e processos de design, para ser desejável, útil e usável.

Mas como se faz essa tal de UX?

Antes de tudo, vale dizer que não é por meio de epifanias que nascem experiências como a da Netflix ou Amazon. É com muito estudo, processos e, sim, criatividade. Para conseguir, de fato, fazer uma entrega de valor para o usuário, o UX Designer precisa de um processo. O mais conhecido e adotado, é o design thinking, que consiste em quatro etapas para alcançar um objetivo: empatizar, definir, idear e prototipar.

Além deles, não podemos nos esquecer o teste, que não é considerado uma etapa do processo por estar diretamente relacionada à prototipar. Isso por que uma solução só pode ser centrada no usuário se for validada com ele. O design de experiência do usuário, inclusive, só tem valor se o usuário for envolvido no processo como um todo.

Com o Design Thinking, existe o conceito do duplo diamante, que nada mais é o fato de você divergir em informações, fazendo uma imersão e pesquisas sobre o assunto para expandir seu conhecimento e depois convergir, fazendo uma síntese e definindo qual caminho seguir, assim, formando o primeiro diamante. Depois disso, você diverge novamente em uma concepção irrestrita de ideias e converge no desenvolvimento da solução a ser testada, formando o segundo diamante.

Esse processo não necessariamente tem fim. Você pode empatizar, definir, idear, prototipar e, quando testar, descobrir que precisa começar tudo de novo. Além disso, podemos percorrer vários duplos diamantes para alcançar um objetivo.

Mas, o mais importante é não trabalhar em função do Design Thinking (ou qualquer processo ou metodologia), mas usar ele a seu benefício, adequado a sua realidade. A essência é um trabalho colaborativo, envolvendo stakeholders e usuários, para entregar uma solução que faça sentido para o cliente, seja benéfico para a empresa e, ao mesmo tempo, viável (tecnicamente, logisticamente, legalmente…). Explore sua criatividade para adaptar processos e metodologias.

Tá, mas quem é esse tal de UX Designer?

O UX Designer é um grande guarda-chuva, que abrange diversas especialidades, como UX Research, UX Writing, Design de Interface e mais. Mas, no geral, o UX Designer é aquele que realiza análises de métricas, pesquisas, workshops, testes, protótipos e, entre outras coisas, também, telas bonitas. Um papel fundamental, além desses, é fazer com que experiência do usuário seja muito mais do que uma pessoa ou um time, mas uma cultura. É aquele que dissemina conhecimento, capacita pessoas e age como uma consultor e porta-voz do usuário dentro da empresa.

O UX Designer, também, atua além da tangibilização de telas, como, por exemplo, na elaboração de estratégias de mídia. Trazendo um exemplo prático e real de como isso pode acontecer, analisando métricas de landing pages de campanha, identificando um problema nelas, gerando uma hipótese de melhoria nesse fluxo, o UX Designer é capaz de aumentar 300% a taxa de conversão em campanhas de lançamento de produto, otimizando o investimento em mídia online. O UX Designer pode, também, atuar além dos produtos digitais e, por exemplo, elaborar estratégias de produtos físicos, construir uma marca e criar e repensar serviços e métodos de trabalho.

Uma breve introdução

Tudo isso foi apenas uma breve introdução. Explicar no detalhe todos os processos, especialidades e atuações de UX em um único texto é uma missão impossível. A ideia central era passar uma noção do que é essa profissão da moda e por que ela é tão importante. E, se você quer começar na área ou quer aplicar um pouco de UX em seu trabalho, foque no problema a ser resolvido não na solução. Foque em evidências, não em subjetividade. E, o mais importante, foque no usuário e não em seus anos de experiência com o público.

E lembre-se, “tudo é experiência do usuário“.

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Fernando é UX Designer e trabalha no entendimento do comportamento, necessidades e motivações do usuário. Trabalhou por três anos no Itaú Unibanco e atualmente está no Grupo Boticário. Atuando em duas das maiores empresas do Brasil, já entregou soluções para e-commerces, sites institucionais, inteligência artificial e produtos digitais. Além disso, é apaixonado pela arte de contar histórias.