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As lições do consumidor que moldam 2027

O paradoxo do consumidor brasileiro mora na distância entre o que ele sente e o que ele faz. Pergunte como anda a vida financeira e a resposta vem com um meio sorriso. Até mesmo para consumidores de padrão mais alto. Siga essa mesma pessoa até o supermercado e o sorriso some. Ela confere o preço, troca a marca habitual pela concorrente, adia a compra que não era urgente e só então decide.

O otimismo até existe, mas quem viveu a inflação dos últimos anos aprendeu que a melhora no orçamento pode ser passageira e que o preço de ontem não volta. Para as marcas, é um erro de leitura acreditar que essa confiança no futuro é licença para gastar hoje. São duas coisas diferentes, e o consumidor já sabe distinguir. O mais interessante é que estamos falando menos de preço e muito mais de valor percebido.

Esse paradoxo do consumidor brasileiro está explicado em vários dados. Entre eles, o que chama mais atenção, é o Consumer Outlook 2027, da NielsenIQ. Segundo o instituto, 45,1% dos brasileiros dizem estar em situação financeira melhor do que há um ano. Na América Latina, a fatia é de 37,3%. Um otimismo desses deveria encher carrinhos, mas, no primeiro trimestre, o volume de consumo caiu em 70% das categorias que a própria NIQ acompanha.

Mesmo para aqueles brasileiros que pareciam de bom humor com o bolso não estavam de mão aberta. É como alguém que recebeu um aumento e, em vez de trocar de carro, passou a conferir o preço do litro de gasolina em três aplicativos antes de sair de casa. Essa figura, esperançosa e vigilante ao mesmo tempo, atravessa quase tudo o que as pesquisas de 2026 mostraram. Quem planeja 2027 com o retrato do consumidor de 2019, ou mesmo de 2024, vai errar o endereço.

Quem fica no meio do caminho

Entre as cinco tendências que o relatório da NIQ aponta para 2027, a mais incômoda é a polarização. Sim, até aqui. O consumo se divide entre o barato e o premium, e as marcas intermediárias andaram perdendo espaço. A NIQ ouviu mais de 21 mil consumidores em 31 países e cruzou as respostas com dados de vendas no varejo.

Mais brasileiros (72,1%) do que latino americanos (64%) dizem preferir economizar quando não enxergam diferença clara entre um produto e outro. Esse mesmo consumidor, porém, aceita pagar mais quando percebe ganho em qualidade, desempenho, conveniência ou inovação. Na beleza, o mercado premium avançou 10% no Brasil no primeiro trimestre, puxado pelo e-commerce, segundo a Circana.

Pense numa ampulheta. Em cima, o grosso do dinheiro e da atenção e, embaixo, também. No meio, o gargalo estreito por onde passa pouco. A marca que se posiciona ali, com preço “razoável” e proposta “morna”, corre o risco de ser a que ninguém lembra de ter escolhido. A NIQ não diz que o meio desaparece, e seria exagero afirmar isso, claro. Ela diz que o crescimento se concentra nas pontas.

Essa análise conversa com outro eixo da pesquisa: a percepção de valor. O BCG, que ouviu mais de 13 mil consumidores em 12 mercados e analisou mais de mil marcas, colocou “valor acima de preço” entre os cinco temas duradouros do consumo.

Muitas marcas continuam disputando consumidores que já avançaram na forma de comprar. Preço baixo é um número e valor é uma conta que o cliente faz de cabeça, e inclui o tempo que ele economiza, o risco que evita e a dor de cabeça que não vai ter.

O custo de vida, esse inquilino que não se muda

Até mesmo globalmente, há uma razão para tanta cautela. 77% apontam o aumento do custo de vida como uma das causas para suas dificuldades financeiras. A inflação desacelerou, mas desacelerar não é voltar.

A própria NIQ calcula que uma cesta de produtos que custava US$ 100 em 2024 passou a custar cerca de US$ 105 em 2026, na média global. O alimento lidera as preocupações (31%), seguido das contas de serviços essenciais, como água e energia (20%), e da desaceleração econômica (17%).

No Brasil, o levantamento Consumer Pulse do segundo trimestre, da TransUnion, mostra a mesma ambivalência por outro ângulo. 71% dos consumidores estão otimistas financeiramente, mas 21% reduziram gastos, principalmente em serviços e produtos digitais. E 36% planejam pedir crédito nos próximos meses, num cenário em que os juros altos pesam na decisão. O brasileiro olha para a frente com esperança e para o extrato com desconfiança.

O consumidor que quer o dinheiro de volta agora

Para dar nome a esse comportamento, a Bain & Company escolheu uma palavra no Consumer Pulse 2026: imediatista. O estudo, feito com 2.051 brasileiros, descreve um consumidor que, pressionado por orçamento apertado e incertezas, prioriza o essencial e exige soluções rápidas, com retorno claro e menor tolerância a promessas abstratas. No ano passado, o rótulo era “equilibrista”, aquele que cortava gastos sem abrir mão do que considerava prioridade.

Na prática, isso aparece em cashback, frete grátis e programas de fidelidade, as vantagens que a pesquisa associa a esse perfil, conforme reportagem do Portal Viva. Uma marca que promete “uma experiência transformadora” disputa a atenção com outra que devolve 5% na conta amanhã de manhã.

A segunda é concreta, e a primeira precisa de fé. E o estresse ajuda a explicar essa pressa. Segundo a Bain, 37% dos brasileiros declaram níveis altos ou extremos de estresse, e as principais fontes são finanças, saúde e segurança. As questões financeiras preocupam 57% dos entrevistados; a saúde, 46%. Quem está cansado não quer decifrar a proposta de valor. Quer saber o que ganha com ela, quando e como.

O frete grátis venceu o preço

É um sinal curioso. O frete é o “porteiro” da compra online: ninguém elogia quando ele não cobra nada, e todo mundo abandona o carrinho quando ele cobra demais. O consumidor aprendeu a ler o preço final, e o produto barato com frete caro virou armadilha conhecida.

O E-Consumidor, estudo da Opinion Box em parceria com a Nuvemshop, entrevistou mais de mil consumidores que compraram online nos 12 meses anteriores, com margem de erro de 3 pontos percentuais. A edição de 2027 é a segunda da série e compara as respostas com as da anterior. O dado mais barulhento: 44% apontam o frete grátis como principal motivo de compra, à frente do preço baixo. Eram 39% na edição anterior.

O mesmo estudo traz um dado menos óbvio sobre o pós-venda. Hoje, 40% preferem resolver atrasos de entrega diretamente com a loja, ante 31% antes. Parece um detalhe logístico, mas é uma mudança de relação. Quando o pedido atrasa, o cliente que procura a marca em vez do marketplace ou da transportadora está entregando um voto de confiança e esperando algo em troca. Quem responde com um chatbot que apenas repete o código de rastreio desperdiça o crédito. Vale a pena a boa conversa.

A inteligência artificial sentou ao lado do consumidor

Poucos números mudaram tanto este ano quanto os da IA. Segundo a Bain, 77% dos brasileiros já usaram alguma ferramenta de inteligência artificial, contra 62% em 2025. Eles recorrem a ela para pesquisar, aprender e apoiar decisões de compra, e os levantamentos da NIQ e da Opinion Box indicam que cerca de metade já a usa na hora de decidir o que comprar.

O passo seguinte é mais ousado. Na pesquisa da Bain, os consumidores se disseram dispostos a migrar mais da metade de suas compras para uma assistente virtual, principalmente na descoberta de produtos, na indicação de ofertas e na ajuda com preço e frete. O estudo da Visa vai na mesma direção: 76% dos brasileiros pretendem usar agentes de IA para comprar, contra 44% nos Estados Unidos. A maioria também diz confiar em deixar um agente comprar em seu nome.

Imagine o corredor de um supermercado em que, de repente, quem escolhe não é mais quem empurra o carrinho. Nesse caso, é mais importante que a informação sobre o produto esteja clara, completa e legível para uma máquina que vai comparar dez opções em segundos. A Globo, no estudo Tendências Brasil 2026, resume o fenômeno ao dizer que a IA reestrutura busca, recomendação e visibilidade de marcas, alterando as cadeias de influência. A pergunta para 2027 deixa de ser “como chamo a atenção do cliente” e passa a ser “como sou recomendada quando o cliente não está olhando”.

A porta está entreaberta: a maioria dos brasileiros diz manter a sensação de controle sobre toda a experiência de compra, e metade se sente segura com agentes de IA, o dobro da fatia registrada nos Estados Unidos (25%). Ainda assim, a própria Visa reconhece que confiança, segurança e controle seguem como fatores centrais para a adoção. Se metade se sente segura, a outra metade ainda não.

A confiança é uma conta bancária

O BCG chama de “nova bússola de confiança” o mecanismo pelo qual os consumidores decidem em quem acreditar. A consultoria faz um alerta que vale para qualquer departamento de marketing: há marcas comprando atenção em vez de conquistar confiança. A diferença é a de quem paga para ser visto e quem é procurado.

Os números brasileiros dão contornos concretos à desconfiança. Na Consumer Trends 2026, da Opinion Box, que reúne pesquisas feitas ao longo de 2025, 77% dos entrevistados se preocupam com a coleta e a análise de dados pessoais pelos sistemas de IA. Sete em cada dez confiam nas informações que a IA fornece, mas ocasionalmente duvidam da veracidade. Já na TransUnion, 22% dizem ter sido vítimas de golpes. Quem foi enganado uma vez compra com o freio de mão puxado.

A confiança funciona como uma conta bancária: depósitos pequenos e frequentes, saques raros e caros. A Globo, em seu estudo, trata a credibilidade como ativo estratégico num ambiente digital, e identifica uma demanda crescente por transparência e autonomia na relação com a tecnologia e com as marcas. Para o consumidor, transparência é saber de onde vem a recomendação, para onde vai o dado e quem responde quando algo dá errado.

O que faz um consumidor pagar mais? Na Opinion Box, 59% preferem escolher uma marca que ofereça boa experiência, mesmo gastando mais. Esse número convive bem com a polarização da NIQ: o premium, para esse público, é a marca em que ele não precisa conferir tudo duas vezes.

O consumidor analítico e a curadoria que resiste

A Globo descreve um consumidor mais analítico, que compara, alterna entre marcas e busca extrair o máximo valor de cada escolha. Pressão sobre a renda e acesso ampliado à informação alimentam esse comportamento. A fidelidade, nesse mundo, deixa de ser um estado e vira uma negociação permanente. A marca precisa se reconquistar a cada pedido, como o garçom que só ganha a gorjeta se o serviço for bom hoje, e não porque foi bom na semana passada.

O mesmo estudo traz um contraponto interessante: entre o excesso de lançamentos e a personalização algorítmica, a curadoria humana resiste como forma de organizar, contextualizar e surpreender. Quando tudo é recomendado por algoritmo, o que passa por uma pessoa de confiança ganha peso. Isso ajuda a entender por que o Opinion Box detectou uma mudança nos canais de descoberta: a parcela de brasileiros que já compraram pelo TikTok saltou de 17% para 44% entre as duas edições do E-Consumidor. O marketplace segue como canal preferido, mas redes sociais e loja própria ganham espaço, e o estudo ainda trata do que chama de cansaço digital, o excesso de estímulos que pesa sobre as compras online.

Muita gente enxerga nessa mudança uma questão de plataforma. Eu enxergo uma questão de quem fala. Tem o vídeo curto que mostra o produto sendo usado por alguém que parece real funciona como o vizinho que diz “compra esse, eu tenho”. É curadoria humana empacotada em feed. Mas tem a voz da marca, encantando, entretendo e informando o consumidor, criando um vínculo forte e duradouro.

A caneta que mexeu na despensa

Uma das mudanças de hábito mais concretas do ano não nasceu no marketing, mas na farmácia. Segundo a Bain, o uso de canetas emagrecedoras no Brasil cresceu de 2% para 11% em um ano. A consultoria avalia que medicamentos do tipo GLP-1 emergem como um dos principais vetores de transformação do consumo, impulsionados por redução de preços e novas formas de administração, e que o tratamento altera comportamentos de compra em diversas categorias.

A saúde se consolidou como prioridade, abrangendo dimensões físicas e mentais, e o controle de peso aparece como principal objetivo. A NIQ também coloca saúde e bem-estar entre suas cinco tendências de 2027. Para quem fabrica alimentos e bebidas, a pergunta é incômoda e direta: o que acontece com o porte da compra, com o tamanho da porção, com o apelo do snack, quando uma parcela crescente dos clientes passa a comer menos? Os relatórios não respondem categoria por categoria, e seria irresponsável inventar uma resposta aqui. Mas apontam a direção.

A Mintel, em suas Predições Globais 2027, oferece uma lente útil para o fenômeno. Entre as dez predições, a consultoria destaca uma transformação que chama de “de produtos a sistemas”: as pessoas combinam produtos, serviços, tecnologias e comportamentos para ter mais controle sobre os resultados que consideram importantes. Alguém em tratamento para perder peso não compra um produto isolado. Monta um arranjo composto de medicamento, alimentação, exercício, monitoramento. A consequência, segundo a Mintel, é que os limites entre categorias se redefinem e a dinâmica competitiva entre as marcas muda. A concorrente da sua marca de iogurte pode ser a academia.

Famílias menores, vidas mais longas

Há também uma transformação de fundo, mais lenta que as outras e por isso mais fácil de ignorar. O BCG listou “solo living” e “mentalidade de longevidade” entre os cinco temas duradouros do consumo. A Bain, por sua vez, observa que as famílias estão ficando menores no longo prazo, e, na visão da consultoria, o crescimento da população acima de 60 anos representa um “mar de oportunidades”.

As consequências são fáceis de imaginar. Embalagens pensadas para quatro pessoas servem pior a uma casa de uma. A comunicação feita para jovens, com o idoso como figurante, perde de vista um público que ganha peso demográfico. Em ambos os casos, o consumidor já mudou, e a prateleira ainda não.

O que levar na mala

Reunidas, as pesquisas de 2026 desenham um consumidor com traços consistentes. Ele tem dinheiro na cabeça e cautela na mão. Compara tudo e muda de marca sem culpa. Exige retorno rápido e prova concreta. Aceita pagar mais quando vê valor, e entende valor como a soma de preço, frete, tempo, risco e atendimento. Começa a delegar a escolha para uma inteligência artificial, mas quer entender quem manda nessa inteligência. E vive uma transformação de saúde e de estrutura familiar que mexe em categorias inteiras sem pedir licença.

Para as marcas, isso se traduz em algumas perguntas práticas que faz valer o plano de comunicação. O produto está claro o bastante para ser recomendado por uma máquina? O pós-venda resolve ou empurra o cliente para outro canal? A marca está na ponta alta ou na ponta baixa da ampulheta, ou ficou no gargalo? E, talvez a mais difícil, a confiança que ela construiu aguenta uma semana em que o cliente decide não comparar?

2026 não trouxe um consumidor novo. Trouxe um consumidor que parou de fingir paciência. Quem entrar em 2027 sabendo disso começa com vantagem, e quem insistir em falar com o cliente de antes vai descobrir que ele já saiu da sala.

Nesse mercado em que o consumidor compara mais, tolera menos e começa a delegar escolhas à inteligência artificial, a leitura do comportamento passou a pesar tanto quanto a execução das campanhas. É a premissa da Zero11, agência paulistana de publicidade, branding e marketing digital fundada em 1991. A empresa que já atendeu mais de 300 marcas em cerca de 15 segmentos, entre eles saúde, beleza, cuidados pessoais, varejo, franquias, educação e alimentos, com seu método batizado de Alta Direção Criativa, propõe conectar estratégia, dados e criatividade num mesmo fluxo de trabalho, do posicionamento à conversão. Segundo a agência, a ideia é que a criatividade seja resultado de observação do contexto e do comportamento do consumidor.